Expressiva




Página inicial > Artigos > Novas tecnologias > O espaço-tempo no meio técnico-científico informacional

Artigos

04.06.2007

O espaço-tempo no meio técnico-científico informacional

por Eneida Leão

Há cem anos, um jovem funcionário do Escritório de Patentes de Berna (Suíça), pobre, pai de uma menina abandonada – provavelmente morando com os avós –, e de um menino pequeno, com um casamento abalado, à beira de um colapso, elabora, matematicamente, uma teoria que revoluciona a compreensão científica do espaço. Albert Einstein relativisou, em 1905, o espaço e tempo absolutos newtonianos com a sua teoria da relatividade especial.

Mais tarde, em 1916, Einstein publica um artigo sobre a teoria da relatividade geral, que hoje podemos analisar, empiricamente, no meio técnico-científico informacional cotidiano. O tempo passa a ser mais uma dimensão do espaço, encerrado na categoria espaço-tempo.

Como afirma Heidegger, a física moderna preparou o caminho para a essência da técnica atual. A partir do questionamento do conceito de técnica, como meio, busca-se alcançar o ‘desencobrimento’, ou seja, a verdade. A técnica moderna não se reduz a um mero fazer do homem. Ela também é um ‘desencobrimento’, marcado pelo controle e segurança.

Se teoria da relatividade geral mudou radicalmente a concepção do espaço e do universo, trazendo à tona questões como a sua expansão constante e a sua origem, a formação dos buracos de minhoca e a possibilidade de viagem no tempo, pode-se também questionar o absolutismo com que, muitas vezes, o espaço cotidiano é analisado.

Para tanto, valem algumas reflexões. Como propõe o geógrafo Milton Santos (1997), com o período científico-técnico, espaço e tempo se fundiram e as ciências sociais não têm como tratá-los separadamente. O espaço é, então, síntese da união dos sistemas de objetos e sistemas de ações. Com as técnicas, que materializam essa união, “não são apenas as ações, como temporalizações práticas, que são Tempo; os objetos, como espacializações práticas, restos de passadas temporalizações, também contêm tempo.”

A técnica surge como suporte material a essa união, histórica e epistemologicamente, como mediadora e reguladora das relações do homem com o seu espaço-tempo. O espaço é hoje meio técnico-científico, formado por uma tecnoesfera e uma psicoesfera. Tecnoesfera entendida como a crescente artificialização do meio ambiente e, psicoesfera, como resultado “das crenças, desejos, vontades e hábitos que inspiram comportamentos filosóficos e práticos, as relações interpessoais e a comunhão com o Universo”(Milton Santos). Ao espaço acrescenta-se ainda um novo estrato, fruto da interseção da tecnoesfera e da psicoesfera. A infosfera, assim como o universo em expansão, cresce continuamente em escala e complexidade, abrangendo as tecnologias da informação e todo o imaginário social que se forma sobre elas.

A história, em suas entrelinhas, narra uma ruptura progressiva do homem e de seu meio. Hoje, com a tecnociência, com uma economia mundializada, as sociedades tendem a adotar um modelo técnico único. Com a fluidez, obtida com as novas técnicas de comunicação e controle, o espaço-tempo também se globaliza, derrubando os obstáculos à circulação do capital hegemônico. Tem-se, então, espaços e tempos despóticos, espacialidades e temporalidades hegemônicas.

A técnica é meio e discurso. O meio técnico-científico informacional possibilita essa queda de fronteiras, geográficas e sociais, instaurando o princípio unitário do mundo: a sociedade mundial. A unicidade das técnicas possibilitou a unificação dos espaços e dos tempos, tornados únicos com a globalização dos lugares, suscetíveis de intercomunicação. São os buracos de minhoca unindo espaços e tempos distintos.

Assiste-se a um episódio ímpar da história, da convergência dos momentos. O meio técnico-científico informacional é a nova feição do espaço e do tempo. Ciência, tecnologia e informação são a base técnica da sociedade atual e a substância do meio geográfico.

Além da formação de um meio técnico-científico informacional, conforme elencado por Santos, as principais características do espaço geográfico mundializado pela globalização são:
▪ a transformação dos territórios nacionais em espaços nacionais da economia internacional;
▪ a exacerbação das especializações produtivas no âmbito do espaço;
▪ a concentração da produção em unidades menores, com o aumento da relação entre produto e superfície;
▪ a aceleração de todas as formas de circulação e seu papel crescente na regulação das atividades localizadas, com o fortalecimento da divisão territorial e da divisão social do trabalho e a dependência deste em relação às formas espaciais e às normas sociais em todos os escalões;
▪ a produtividade espacial como dado na escolha das localizações;
▪ o recorte horizontal e vertical dos territórios;
▪ o papel da organização e o dos processos de regulação na constituição das regiões; e
▪ a tensão crescente entre localidade e globalidade à proporção que avança o processo de globalização.

Nem técnico, nem natural, o espaço passa a ter como base a ciência, a tecnologia e a informação. É o que Santos chama de ‘cientificização e tecnocização’, a ‘informatização’ e ‘informacionalização’ da paisagem. Os objetos passam a ser informação, específica e especializada, um discurso proveniente de sua estrutura, revelando também a sua funcionalidade, o seu uso. O espaço total pode ser assim apreendido como a soma e interação dos sistemas de objetos e de ações.

Ao espaço é atribuída uma quinta dimensão: ‘a espessura, a profundidade do acontecer’, graças ao número e diversidade dos objetos (fixos) e ao número exponencial de ações (fluxos) que o atravessam. Pode-se dizer que o espaço passa a ser composto por lugares e fluxos, um espaço de lugares interconectados, no qual as tecnologias de comunicação têm papel fundamental, hoje, particularmente, com o advento da internet.

Como afirma Santos, os atuais sistemas técnicos se tornaram mundiais, mesmo preservando a distribuição geográfica irregular e o uso social hierárquico da técnica. Fato inédito na história humana, podemos constatar a existência de um sistema técnico hegemônico único, superpondo-se aos sistemas técnicos precedentes, utilizado pelos atores hegemônicos da economia, da cultura, da política. Fator essencial ao processo de globalização, somente possível a partir dessa unicidade técnica.

A união da técnica e da ciência promoveu também a aproximação da ciência e da produção. A tecnociência constitui-se como alicerce material e ideológico à globalização. O atual sistema técnico-científico tem ainda como característica marcante a rapidez de sua difusão, graças, em grande parte, à combinação da segunda geração de tecnologias da informação (fundadas na mecânica, na eletromecânica e na eletrônica) com a fase atual, a “terceira informática”, com a microeletrônica. Entre as grandes inovações técnico-científicas informacionais situam-se às relacionadas à mídia rádio-televisiva (televisão por cabo, digital, etc); à rede telefônica (do fax à telefonia móvel); aos microcomputadores e computadores domésticos; aos produtos que incorporam a microeletrônica (máquinas fotográficas, filmadoras, aparelhos domésticos, etc) e aos novos serviços e produtos multimídia, que congregam as mídias tradicionais, a telefonia, a micro-informática e a internet.

Na atual fase histórica, os novos objetos técnicos trazem também novos signos. Testemunhamos a multinacionalização das empresas, a internacionalização da produção e do produto, a mundialização da economia, os novos papéis do Estado e a revolução da informação, que, com o progresso da informática, passa a conectar instantaneamente os lugares.

A informação, que passa a comandar os objetos é uma informação especializada, que requer conhecimento, isto é, poder. Cabe indagar: quais são os atores hegemônicos que detém esse poder?

« Voltar

© 2007, Expressiva Comunicação e Educação.                                Rua Ribeiro Guimarães, 191/601 . Vila Isabel . Tel. (21) 9692-6383.

ghd sale beats studio louis vuitton billig clarisonic mia bolsos louis vuitton abercrombie and fitch pandora charm rs gold replica watches for men ralph lauren sale